quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Os cristãos comem criancinhas?


de Jacopo Fo

Acho que, em parte, devemos também ao cristianismo o fato de hoje o mundo parecer menos desumano, sádico e violento do que no passado.

Por dois mil anos, milhões de crentes tentaram de todas as maneiras testemunhar a palavra de paz e amor que Jesus pregava. Viam se crentes nas cabeceiras dos doentes, recolhendo órfãos pelas ruas,
curando os feridos depois das batalhas e saques.
Havia cristãos, como São Francisco, que davam casa e conforto aos que eram devorados pela lepra e comida a quem morria de fome. E muitos como ele atravessaram as linhas de frente das batalhas para promover a paz entre os exércitos. Existiam muitos fiéis que socorriam os sobreviventes das inundações, dos terremotos, das fomes. Havia ainda cristãos que tentavam impor um limite à brutalidade contra os escravos e servos da gleba oprimidos pelos possessores. Existiram cristãos que se expuseram abertamente a fim de obter a graça para um inocente condenado sem provas, apenas por fanatismo religioso.

Viram-se sacerdotes que construíram comunidades de índios e morreram com eles quando os conquistadores católicos decidiram que se agrupar em comunidades igualitárias e não pagar impostos constituía um crime contra Deus e a Coroa. Existiram sacerdotes que fundaram cooperativas e escolas para trabalhadores, que organizaram caixas de assistência mútua e ajudaram judeus e ciganos perseguidos a fugir... Mas essas pessoas, que por dois milênios contribuíram enormemente para melhorar a condição humana e civil dos mais fracos, raramente faziam parte dos vértices da Igreja.

Como aconteceu com todas as religiões do mundo que se tornaram "cultos do Estado", os centros de poder das principais igrejas cristãs foram conquistados por indivíduos inescrupulosos e maliciosos, dispostos a usar a fé e o misticismo com o único objetivo de obter riqueza e autoridade.

É claro que não se pode generalizar: existiram homens religiosos com grandes incumbências na esfera eclesiástica, que agiram com justiça e notável honestidade, e que sobretudo eram partidários — colocando em risco até mesmo a própria vida — do direito à dignidade e à sobrevivência dos pobres, golpeando, com palavras e atos concretos, "os ricos bem nutridos e poderosos, inimigos de Cristo e dos homens" (de uma homilia de Santo Ambrósio). Mas também é verdade que, por séculos, os papas continuaram vendendo os cargos religiosos a quem oferecia mais, e para ser ordenado bispo bastava pagar, não era necessário nem ser padre. Por dinheiro, Júlio II consagrou cardeal um rapazinho de 16 anos. Assim, no final das contas, muitos enganadores conseguiram até chegar a ser eleitos papas e macularam suas vidas com crimes horrendos.

O papa Woityla pediu perdão a Deus pelos pecados cometidos no passado por aqueles que representavam a ou pertenciam à Igreja. Mas, por maior que seja a lista dos atos nefastos cometidos, não podemos pretender que ela seja exaustiva.
Então, demo-nos o trabalho de reunir o maior número de documentos que produzam uma idéia menos vaga do "pecado" que maculou a Igreja. Ao realizar esta pesquisa, deparamo-nos com um quadro de traços chocantes, povoado com um número inacreditável de episódios por vezes grotescos, mas sempre trágicos.

As histórias que contaremos não se encontram em todos os livros. Ao contrário, os textos que narram esses fatos (salvo raras exceções) foram colocados no limbo por especialistas.

Mas por que embarcamos em tal aventura? Decerto, não por um anticlericalismo doentio. Hoje, até mesmo no clero inaugurou-se um debate muito fértil sobre a pesquisa histórica do percurso das religiões. Em toda parte, nascem grupos de fiéis que tentam pôr em prática a palavra de Jesus e constroem solidariedade, liberdade, paz, superando obstáculos que ainda se interpõem à criação de um mundo onde a vida anterior à morte também seja digna de ser vivida. Mas, para que essa renovação seja profícua, é indispensável mergulhar profundamente no clima histórico, político e religioso que determinou o sacrifício de tantos mártires, vítimas da parte corrupta e autoritária do clero, muitas vezes com o auxílio dos grupos no poder.

Aquela consciência e aquela cultura, capazes de impedir que tais horrores se repitam, só podem ser construídas por meio da análise e do discernimento da natureza e gravidade dos abusos.

Este livro é dedicado a todos os cristãos e aos homens de boa vontade das outras crenças. Também é dedicado aos ateus, que, exatamente por não acreditarem, têm a obrigação moral de possuir um profundo senso religioso da vida.

Jesus amava as mulheres
Jesus pregava o amor, a fraternidade e a piedade em uma época em que esses sentimentos muitas vezes eram considerados infames sinais de fraqueza. Os Evangelhos nos contam que, dentre seus mais estimados seguidores, na primeira fila estavam as mulheres. Os evangelistas também narram como Jesus desprezava a riqueza e condenava veementemente aqueles que tentavam fazer da fé uma mercadoria.

Esta filosofia rapidamente colocou os cristãos contra a cultura e os poderosos da época, e as perseguições logo começaram. Mas apenas três séculos após a crucificação do Messias, o cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano, o que significa que nenhum súdito podia professar outra crença, sob pena de cruel perseguição e, muitas vezes, o patíbulo.

Como é possível que o mesmo Império que crucificara Jesus tenha decidido que o cristianismo seria a religião do Estado apenas trezentos anos depois? É um salto abissal.

Para entender isso, é preciso analisar algumas características do Império Romano.

A escola encheu nossas cabeças de histórias sobre generais geniais e legisladores brilhantes. Mas Roma também era outra coisa. As mulheres eram consideradas animais de propriedade dos pais e maridos, que tinham o direito de bater nelas e matá-las. Uma mulher romana digna era aquela que, assediada por um malfeitor, tirava a própria vida. Não tanto para salvar a própria honra, mas para glorificar a do marido.

As crianças, na escola, conheciam bem o chicote e os professores tinham exemplares de várias formas e tamanhos pendurados na sala de aula.

Como acontece ainda hoje em alguns lugares do planeta, em Roma, também, os bebês recém-nascidos do sexo feminino muitas vezes eram sufocados ou abandonados. As recém-nascidas abandonadas com mais sorte, muitas vezes, eram pegas por vendedores de escravos, que as criavam e, aos 5 ou 6 anos, começavam a prostituí-las.

Júlio César não pode, no entanto, ser considerado o inventor do extermínio em massa — antes dele, conhecemos outros matadores extraordinários (hititas, assírios, babilônios) —, mas o divino Júlio com certeza pode ser eleito o aperfeiçoador emérito do genocídio organizado. Em De Bello Gallico, explica como organizou e lançou a horda de bandidos gauleses e germânicos contra o povo eburone, culpado de não querer se sujeitar ao Império, oferecendo aos criminosos asilo e proteção em seus acampamentos fortificados. O futuro imperador depois narra, com certo prazer, como conseguiu aplicar toda espécie de infâmias, traições e armadilhas, até eliminar definitivamente da face da Terra a raça dos eburones. Foi o primeiro comandante a matar todos os habitantes de uma cidade, incluindo crianças, para puni-los por ter resistido (Moisés, pelo menos, depois de conquistar a cidade de Madian, poupou as mulheres virgens).

Por séculos, os romanos se divertiram vendo prisioneiros de guerra lutando entre si nos circos. Em um único mês, o imperador Diocleciano fez quarenta mil homens se matarem no Coliseu, mais de mil por dia, enquanto uma multidão exaltada bebia vinho misturado com mel e chumbo, fumava ópio, fazia negócios e copulava com prostitutas e prostitutos, na maioria pré-adolescentes. A quantidade de sangue e de órgãos esquartejados não os incomodava e em parte era coberta pelo fedor de vômito, já que os romanos, para continuar se enchendo de comida e bebida, tinham o hábito de enfiar dois dedos na garganta para vomitar o que acabavam de ingerir.

O cristianismo fora maltratado cruelmente e sofria havia mais de um século as perseguições do poder imperial. Os cristãos eram arrastados até as arenas, onde eram massacrados entre os gritos e as risadas de uma multidão de apaixonados pelo genocídio lúdico. Então, de repente, os perseguidores se tornam paladinos da Igreja. Teologia, rituais, interpretações do Evangelho são cuidadosamente transformados e adaptados à linguagem e ao pensamento do poder romano. O cristianismo não redime quem havia martirizado os primeiros cristãos, e sim se limita a servir a eles.

As histórias sobre as conversões dos imperadores quase sempre são feitos colossais. Constantino é aquele que adota o cristianismo como religião oficial do Império. O mesmo imperador que mandou matar o próprio filho, a mulher, o sogro e o cunhado. Reza a lenda que Jesus apareceu para ele e lhe prometeu vitória na batalha em troca da adoção do cristianismo como única religião do "mundo civilizado" e do uso do símbolo da cruz, alçado de forma triunfante na batalha. Naturalmente, nem todos os seguidores de Jesus concordaram com esse pacto, que implicava uma verdadeira renúncia aos valores cristãos fundamentais. E, então, um dos primeiros gestos cristãos de Constantino foi perseguir todos os cristãos que seguiam o Evangelho literalmente e, assim, forçosamente, estavam em conflito com os devotos do poder. Um sem-número deles foi morto, outros tantos acabaram no exílio, desprovidos de qualquer bem, outros foram reduzidos à escravidão.

Lutas fratricidas
Os primeiros séculos do cristianismo são marcados por contínuas investidas contra os cristãos que não aceitaram os ajustes e as interpretações dos ditames do Filho de Deus. A elas se alternam lutas pela divisão do poder entre papas e imperadores, papas e antipapas, papas e bispos, bispos e bispos, em uma sucessão de conspirações, cismas e lutas que não excluíam a força física. É quase impossível reunir todos os acontecimentos sanguinários que primeiro assolaram a Europa e, depois, o mundo, e que nasceram de conflitos pelo poder nos quais a Igreja se interpôs entre as forças combatentes. Milhões de pequenas conspirações, guerrinhas e ameaças que ninguém nunca contou.

Neste livro, limitamo-nos a citar os eventos mais importantes, mas confiamos na imaginação do leitor para completar o quadro da situação da fé naquela época. Os níveis máximos de fúria eram atingidos exatamente quando se devia sufocar o renascimento das idéias originais de Jesus. Elas nunca deixaram de acordar as pessoas para a dignidade e a celebração do valor coletivo do amor cristão.

O que testemunha esse poder extraordinário da palavra de Jesus é o surgimento, durante séculos após seus ensinamentos, das incríveis utopias sociais e comunitárias, que funcionavam muito bem até a chegada dos soldados do papa e do imperador, excepcionalmente reunidos para massacrar os cristãos que viviam em comunidade, sem autoridade ou impostos.

No ano de 476, o Império Romano do Ocidente, há tempos já corrompido e devastado pelas lutas de poder, deixa de existir até oficialmente. Os "bárbaros" zinhos, confiantes em seu valor em sua homogeneidade social, chegam em ondas, mas logo são arrebatados pela febre da traição e da desconfiança. Nenhum império resiste muito tempo.

Mas entre as lutas religiosas e políticas, amplificadas pelas invasões "bárbaras", pode acontecer que um rei traído por seus súditos e abandonado pelos mercenários decorra aos camponeses, oferecendo a eles liberdade e a propriedade da terra, e obtendo em troca exércitos invencíveis. O envolvimento dos camponeses na política, a explosão do artesanato, das manufaturas, da cultura dos ofícios e da invenção de novas técnicas levam o povo a amadurecer uma idéia mais digna de si próprio e um senso de justiça mais profundo.

Assim, por volta do ano mil, este novo modo de conceber e viver o mundo se funde ao que resta das idéias do cristianismo primitivo. Desenvolvem-se movimentos que unem a idéia do retorno ao cristianismo puro e a vontade de organizar uma sociedade sem rei, generais ou escravidão. Basicamente, a população dos fracos começa a se rebelar contra o poder sagrado e abençoado dos nobres patrões, inspirados pelo indispensável clero. Eles também descobrem que os poderosos, como guerreiros profissionais, não são muito valorosos: os artesãos e camponeses reunidos na comuna, armados de lanças e bem treinados, muitas vezes conseguem abatê-los como a fantoches.

Hereges
E já que os nobres não servem para nada, por que não se livrar deles? E para que servem os padres, que muitas vezes são bispos e condes ao mesmo tempo? Ninguém mais acredita na santidade deles, já que, sob as vistas de todos, cometem todo tipo de pecado.

E assim nasce a idéia de que os sacramentos, se administrados por pessoas indignas, não têm nenhum valor. "Ignorem o indigno exemplo deles", grita logo um teólogo "sigam o que dizem os ministros de Deus, não o que eles fazem".

No século X, começam a nascer em toda a Europa grupos de fiéis que pregam e aplicam a comunidade do bem, a fraternidade, e recusam a autoridade eclesiástica. Combatendo esses movimentos, as hierarquias eclesiásticas e nobres (que muitas vezes são a mesma coisa) se organizam para exterminar os habitantes de regiões inteiras, condenando os sobreviventes ao suplício público. No ápice dessa perseguição, muitas pessoas são torturadas e assassinadas de formas horrendas apenas por terem apoiado a tese de que Jesus e os apóstolos não possuíam riquezas ou bens materiais. O mero fato de ter uma Bíblia em casa já bastava para levantar as suspeitas de se ser um inimigo da Igreja. Se essa Bíblia ainda fosse traduzida para o latim vulgar, ou seja, uma língua entendida pelo povo, e não tivesse autorização, a condenação por heresia era certa.

Os cristãos comunitários queriam se inspirar no Evangelho, sem intermediários. E muitas, muitas vezes, pagaram por isso com a própria vida.Um martírio que enfraquece aquele dos primeiros cristãos sob o Império Romano.

Contra os hereges, em dado momento, chegou a ser inventado um instrumento repreensivo de perfeição diabólica: a Inquisição. Os inquisidores eram, ao mesmo tempo, policiais, carcereiros, acusadores e juízes. Qualquer besteira já era suficiente para acabar em suas garras: um boato, uma carta anônima, um comportamento ligeiramente diferente do normal. Até ser devoto demais era considerado comportamento duvidoso. O suspeito era considerado culpado se não conseguisse provar a própria inocência. E quem testemunhava em favor de um suposto herege podia, por sua vez, tornar-se suspeito e sofrer um processo. Na verdade, as perseguições aos hereges começam logo depois da criação da Igreja de Estado e terminam no século XVIII, com as últimas ondas de caça às bruxas. As histórias dos processos e das perseguições realizadas pela organização eclesiástica e pelo "Santo Tribunal" são tão absurdas e contraditórias que não nos permitem nenhuma análise verossímil. É impossível fazer um balanço confiável dessas guerras e perseguições, e decerto milhões de pessoas foram assassinadas em mais de mil anos de crueldade desumana.

Os exércitos cristãos
E, como se não bastasse, foram os papas que ordenaram as Cruzadas e, posteriormente, a colonização das "terras novas" e os massacres que se sucederam.

Mas vejamos em ordem. Primeiro, foram as tentativas de invadir a Palestina, o Líbano e a Síria, com o pretexto de libertar o Santo Sepulcro. Em Storici arabi alle crociate, Gabrieli reúne os testemunhos de vários cronistas medievais no Oriente Médio. Por meio dessas declarações, pudemos saber que, até depois da metade do século XII, ou seja, antes do começo das invasões dos franco-cruzados, milhares de cristãos visitavam livremente a Palestina e todos os lugares onde Jesus Cristo vivera e pregara. As Cruzadas foram um projeto criminoso em todos os aspectos, e, mal nos questionamos sobre a sucessão de fatos que levaram à Terra Santa turbas desenfreadas aos gritos de "Assim quer Deus!", finalmente vemos aflorar a real motivação da campanha que levou São Francisco a tal indignação a ponto de exclamar: "Vim converter os infiéis e descobri que os que precisam de fé e noção de piedade não são os guerreiros muçulmanos, mas os soldados de Cristo e, antes de mais nada, os bispos que os conduzem!".6 Além do mais, os "exércitos de Deus" talvez tenham matado mais cristãos do que infiéis. Os exércitos cristãos que se dirigiam à Palestina tinham um longo caminho a percorrer, sem provisões ou acampamentos organizados. Portanto, tinham como costume obter o que precisavam saqueando as cidades cristãs pelas quais passavam durante a viagem. Por exemplo, a famosa "Cruzada dos Mendigos", em 1096, que causou o massacre de quatro mil pessoas apenas na cidade húngara de Zemun.

No mesmo ano, o contingente guiado pelo nobre alemão Gottschalck trucidou mais de dez mil pessoas culpadas de terem-se deixado dominar pelos saques. Alguns homens partiram para as Cruzadas seguindo os passos de um pato! Estes devotos acabaram se unindo a uma Cruzada guiada por um ilustre salteador chamado Emich, que nunca chegou à Terra Santa, limitando-se a um tour durante o qual massacrou milhares de judeus, espoliando-os de seus bens.

Mas outros cruzados, que participaram de expedições seguintes, também decidiram se preparar para a guerra contra os infiéis muçulmanos começando a massacrar infiéis judeus desarmados. Em 1212, trinta mil meninos da Europa Central partiram para as Cruzadas sozinhos e sem armas. A maior parte desse "exército" embarcou em Marselha acreditando partir para libertar o Santo Sepulcro. Em vez disso, os garotos (pelo menos os que sobreviveram aos contratempos da viagem) foram vendidos aos
turcos como escravos. 

A Quarta Cruzada, realizada em 1202, operou uma pequena devastação e, em vez de ir até a Terra Santa, tomou de assalto a perfeitamente cristã Constantinopla, conquistada por meio de saques e do massacre da população. No final das contas, quem ganhou com as Cruzadas, com certeza, não foram os soldados e seus capitães, e sim os mercadores das Repúblicas Marítimas italianas e a Igreja de Roma.

A volta das Cruzadas também foi uma aventura trágica. Os cruzados muitas vezes tinham que entregar aos transportadores todo o fruto de seus saques e roubos.

Sabe-se, também, que os cruzados, até pela forma como eram recrutados, não eram brilhantes em termos de disciplina e organização. Seus acampamentos eram erguidos sem nenhum cuidado estrutural. Em poucas palavras, eles não tinham áreas de higiene, não existiam enfermarias nem médicos organizados, e a cada chuva as barracas eram inevitavelmente carregadas pelas águas misturadas à urina e ao estéreo. Resumindo: Deus não estava com eles e os castigou matando vários de cólera, infecção gastrointestinal e doenças venéreas locais e exóticas. A propósito, não podemos esquecer a grande quantidade de prostitutas que seguiam o exército. A isso acrescentemos o fato de que os cruzados não costumavam tomar mais do que dois banhos por ano e muitos fizeram a promessa de não tomar banho até a libertação do Santo Sepulcro.

Ignorando as leis alimentares dos povos que já viviam há anos naquele clima, enchiam-se de carnes de porco assada ou salgada e se embebedavam da manhã até a noite. O resultado foi que, às epidemias normais em voga, acrescentaram-se outras ainda mais devastadoras. Além disso, como já lembramos, os pobres coitados eram tratados por médicos e cirurgiões cuja ignorância só se igualava a seu fanatismo. O resultado era que ser ferido em batalha ou contrair uma doença grave garantia, depois do tratamento médico, a certeza da morte inevitável.

Sobre esse assunto, transcrevemos o comentário de um médico oriental cristão durante a consulta de um cavaleiro ferido e de uma mulher doente:
...Apresentaram-me um cavaleiro que tinha um abscesso em uma
perna e uma dona aflita pelo definhamento. Fiz um emplastro no cavaleiro, e o abscesso abriu e melhorou; prescrevi uma dieta para a mulher, com pouco tempero. Quando eis que chegou um médico franco, que disse: "Esse aí não sabe curar ninguém". E, dirigindo-se ao cavaleiro, perguntou: "O que prefere, viver com uma só perna ou morrer com duas pernas?" Tendo este respondido que preferia viver com uma só perna, ordenou: "Traga-me um cavaleiro corajoso e um machado afiado". Chegaram o cavaleiro e o machado, e eu estava ali presente. O médico colocou a perna sobre um pedaço de madeira e disse ao cavaleiro: "Desça-lhe uma machadada, para cortar de pronto!" E, diante de meus olhos, deu a primeira machadada e, não conseguindo arrancar a perna, deu a segunda; a medula da perna jorrou e o paciente morreu na hora. Após examinar a mulher, ele disse: "Essa aí tem o demônio na cabeça, apaixonado por ela. Cortem-lhe os cabelos",. Foram cortados, e ela voltou a comer o alimento deles, com alho e mostarda, e o definhamento aumentou. "O diabo entrou na cabeça dela", sentenciou ele, e pegou a navalha e abriu a cabeça dela em forma de cruz, extirpando o cérebro até aparecer o osso da cabeça, no qual esfregou sal... e a mulher morreu na mesma hora. Naquele momento, perguntei: "Ainda precisam de mim?" Responderam que não e fui embora, depois de aprender o que ignorava da medicina deles.

Acrescente-se a isso o fato de que muitos cruzados eram aventureiros dispostos a entregar armas e provisões ao inimigo em troca de dinheiro, a vender a mulher para pagar dívidas de jogo, a trucidar companheiros para derrubá-los. Muitos foram obrigados a partir para a Palestina, mais do que por um rompante de fé, pela lâmina que pendia sobre suas cabeças junto com uma sentença de enforcamento.

E as suas não eram cabeças quaisquer. Muitas vezes, tratava-se de nobres falidos e ambiciosos que tinham como único objetivo a riqueza pessoal e que não se detinham diante a nenhuma torpeza desde que concretizassem seus intentos. Viram-se batalhas entre exércitos de cruzados rivais pela posse de uma cidade, alianças entre príncipes cristãos e emires turcos. Muitos nobres cruzados permitiram que seus companheiros de armas fossem trucidados sem levantar um dedo, por questões de rivalidade.

O modelo das cruzadas tinha feito escola. E, assim, quando o papa Inocêncio III decidiu deter a heresia catara e valdense, decretou em
1209 uma verdadeira cruzada no sul da França, que durou vinte anos e massacrou dezenas de milhares de pessoas. Os cátaros eram culpados de propagar uma vida comunitária pacífica e solidária, respeitando os ensinamentos de Jesus e recusando-se a reconhecer "o poder por vontade de Deus" da Igreja. O pontificado de Inocêncio III marca também o auge do poder temporal do papado. O papa passava a ser um soberano para todos os efeitos, e o Estado da Igreja torna-se uma verdadeira potência européia. Como todos os soberanos, o bispo de Roma possuía territórios e exércitos, declarava guerra e realizava alianças. Vários reinos se reconheciam como vassalos da Santa Sé e pagavam conspícuos tributos a Roma.
Além disso, o papa utilizava o próprio poder espiritual para orientar a política dos Estados a ele alinhados. Se um rei era excomungado, perdia automaticamente o direito de cobrar obediência dos súditos e vassalos. Pode-se concluir, assim, que os soberanos cristãos pensavam duas vezes antes de pisar no pé da Santa Sé. Em suma, o papado acolheu por completo a herança criminosa do Império Romano. Houve até um papa, Júlio II, que encomendou uma armadura para conduzir seus próprios exércitos nas batalhas.

A Igreja escravista
Chegando a este ponto, a Igreja, faminta por expansão, passou a dedicar-se às conquistas coloniais. São os sacerdotes os primeiros colonizadores da África negra. Encontramos padres, ao lado dos conquistadores espanhóis, que massacraram os índios da América. Foram os padres que organizaram o comércio de escravos.

Na verdade, foi o próprio Estado da Igreja que ordenou, em 1344, a conquista das Ilhas Canárias. E, provavelmente, foi o bispo De Las Casas, após a conquista da América, que sugeriu que os indígenas, que não suportavam o trabalho massacrante e as doenças levadas pelos colonos, fossem substituídos por africanos.8 Assim, desde o início de 1500, os missionários da África começaram a organizar a exportação de escravos para a América, equipando os navios "missionários" para tal fim. Fala-se de dezenas de milhões de ameríndios mortos em batalha ou aprisionados, exterminados por doenças e pelo cansaço. O desastre foi tamanho que se calcula que, só no México, a população tenha passado de 25 milhões de índios, em 1520, a menos de um milhão e meio em 1595.

Calcular o massacre ocorrido com o comércio de escravos é impensável. Fala-se de pelo menos vinte milhões de pessoas levadas para a América. A expectativa de vida delas, a partir do momento do desembarque, era de sete anos. Mas, para cada negro que chegava à América como escravo, nove prisioneiros morriam durante a captura, a viagem até o porto de embarque ou a travessia.' Portanto, pode-se falar em 190 milhões de mortos. Mas a conta é bem mais dramática: as contínuas incursões dos escravistas por quase trezentos anos destruíram a economia de vastas áreas da África, privando populações inteiras de sua melhor mão-de-obra, o que fez milhões de pessoas morrerem de fome, epidemias e exaustão. Era possível percorrer centenas de quilômetros em meio às ruínas do que um dia foram civilizações brilhantes e culturalmente evoluídas e não encontrar um único sobrevivente, apenas ossos que brilhavam sob o sol.

O horror do colonialismo teve nos missionários seus mais ferozes defensores. Estes se dedicaram a extirpar as religiões tradicionais dos povos subjugados com a violência e a tortura. Chegaram até a impedir que as crianças falassem sua língua-mãe, punindo-as com castigos corporais.

E para entender como os padres brancos podiam ser desumanos, basta lembrar que muitas vezes eram enviados às missões sacerdotes manchados por crimes graves e que eram considerados indignos para realizar seu ofício na Europa. Eles abençoaram todas as formas mais infames de apartheid. Em muitos países da África, por exemplo, os negros eram proibidos de comercializar com os brancos ou de cultivar hortaliças ou cereais nas áreas em que a monocultura dos latifundiários brancos era obrigatória. Plantar abóboras custava uma das mãos na primeira vez, um pé na segunda e, na terceira, a cabeça. A razão de tanta brutalidade era simples: assim, os nativos eram obrigados a se dedicar à monocultura e a vender seu produto aos patrões brancos em troca de comida. Então, se quisessem sobreviver, teriam de vender aos brancos sem poder discutir o preço. Ou aceitavam ou morriam. E se analisarmos as condições em que muitos países do Terceiro Mundo se encontram hoje, não poderemos deixar de ver, na miséria e na violência atuais, a marca de séculos de exploração. Na escola, não aprendemos nada sobre o colonialismo e o papel da Igreja nele.

Os ingleses, por exemplo, especializaram-se no tráfico de drogas, vendendo enormes quantidades de ópio à China. Por três vezes, o imperador chinês proibiu este comércio e, por três vezes, canhoneiros ingleses bombardearam os portos chineses para impor sua liberdade de vender droga. Foram as famosas Guerras do Ópio: em 1848, em 1856 e em 1858. E tenham certeza de que o chumbo dos canhões era abençoado.

Finalmente, não podemos nos calar a respeito do papel que a Igreja teve ao apoiar o nazismo, o fascismo, o extermínio dos judeus, os massacres da Guerra Espanhola, e do suporte dado por boa parte do clero cristão a todas as mais infames ditaduras do planeta. Sacerdotes.

O LIVRO NEGRO DO CRISTIANISMO
Jacopo Fo – Sergio Tomat – Laura Malucelli
Ediouro
2007

Uma definição de capitalismo - História do pensamento econômico: Uma perspectiva crítica


A afirmação de que as tentativas de compreender o capitalismo começaram com Adam Smith é, naturalmente, muito simplista. O capitalismo como sistema econômico, político e social dominante surgiu muito lentamente, em um período de vários séculos, primeiro na Europa Ocidental e, depois, em grande parte do mundo. À medida que surgia, as pessoas buscavam compreendê-lo.

Para resumir as tentativas de compreender o capitalismo, é necessário, primeiro, defini-lo e, então, rever resumidamente as principais características históricas de seu aparecimento. Deve-se afirmar desde já que não há consenso geral entre economistas e historiadores econômicos quanto ao que sejam as características essenciais do capitalismo. De fato, alguns economistas sequer acreditam que seja útil definir sistemas econômicos diferentes; eles acreditam em uma continuidade histórica, na qual os mesmos princípios gerais são suficientes para compreender todos os ordenamentos econômicos. Entretanto, a maioria dos economistas concordaria que o capitalismo é um sistema econômico que funciona de modo bem diverso dos sistemas econômicos anteriores e dos sistemas econômicos não capitalistas. Este livro é baseado numa abordagem metodológica que define um sistema econômico segundo o modo de produção no qual se baseia. O modo de produção, por sua vez, é definido pelas forças produtivas e pelas relações sociais de produção.

As forças produtivas constituem o que comumente se chamaria tecnologia produtiva de uma sociedade. Essa tecnologia consiste no estado atual do conhecimento técnico ou produtivo, nas especializações, técnicas organizacionais etc., bem como nas ferramentas, implementos, máquinas e prédios usados na produção. Dentro de qualquer conjunto de forças produtivas, deve-se incorrer em determinados custos necessários à manutenção da existência do sistema. Outros recursos, as matérias-primas, devem ser continuamente extraídos da natureza. Maquinaria, ferramentas e outros implementos de produção desgastam-se com o uso e devem ser substituídos. Mais importante ainda é que os seres humanos, que fazem o esforço necessário para assegurar a disponibilidade das matérias-primas e para transformá-las em produtos acabados, devem ter uma quantidade mínima de alimentos, roupas, moradia e outros bens necessários à vida em sociedade.

Os modos de produção que não satisfizeram a essas necessidades mínimas de produção contínua desapareceram. Muitos modos históricos de produção conseguiram atender a essas necessidades mínimas durante certo tempo, mas, devido à mudança das circunstâncias, tornaram-se incapazes de continuar a fazê-lo e, consequentemente, se extinguiram. A maioria dos modos de produção que continuaram a existir por muito tempo, de fato, tem produzido não apenas o suficiente para atender às necessidades mínimas, mas também um excesso, ou excedente social, além dos custos necessários. O excedente social é definido como aquela parte da produção material da sociedade que sobra, após serem deduzidos os custos materiais necessários para a produção.

O desenvolvimento histórico das forças produtivas tem resultado em uma capacidade sempre crescente de as sociedades produzirem excedentes sociais cada vez maiores. Dentro dessa evolução histórica, cada sociedade tem sido dividida, de modo geral, em dois grupos separados. A maioria das pessoas, em cada sociedade, trabalha exaustivamente para produzir o necessário para sustentar e perpetuar o modo de produção, bem como o excedente social, enquanto uma pequena minoria se apropria desse excedente e o controla. Neste livro, as classes sociais são diferenciadas entre si em função desse fato; as relações sociais de produção são definidas como relações entre essas duas classes. Um modo de produção é, portanto, o conjunto social da tecnologia de produção (as forças produtivas) e os arranjos sociais através dos quais uma classe une suas forças produtivas para produzir todos os bens, inclusive o excedente, e a outra dele se apropria (as relações sociais de produção).

No contexto desse conjunto geral de definições, podemos definir capitalismo como o modo particular de produção com o qual os pensadores estudados neste livro têm se preocupado. O capitalismo é caracterizado por quatro conjuntos de arranjos institucionais e comportamentais: produção de mercadorias, orientada para o mercado; propriedade privada dos meios de produção; um grande segmento da população que não pode existir, a não ser que venda sua força de trabalho no mercado; e comportamento individualista, aquisitivo, maximizador, da maioria dos indivíduos dentro do sistema econômico. Cada uma dessas características será discutida brevemente.

No capitalismo, o valor dos produtos do trabalho humano é dado por duas razões distintas. Primeiro, tais produtos têm características físicas particulares, em virtude das quais se tornam utilizáveis e satisfazem às necessidades humanas. Quando uma mercadoria é avaliada por seu uso na satisfação das nossas necessidades, diz-se que tem valor de uso. Todo produto do trabalho humano, em todas as sociedades, tem valor de uso. No capitalismo, os produtos têm valor porque podem ser vendidos no mercado, em troca de dinheiro. Esse dinheiro é desejado porque pode ser trocado por produtos que têm um valor de uso desejado. Na medida em que os produtos têm valor, porque podem ser trocados por moeda, diz-se que eles têm valor de troca. Os produtos do trabalho humano têm valor de troca somente nos modos de produção caracterizados pela produção de mercadorias. Para que a produção de mercadorias exista, é preciso que a sociedade tenha um mercado muito desenvolvido, no qual os produtos possam ser livremente comprados ou vendidos em troca de moeda. Existe produção de mercadorias quando os produtos são fabricados pelos produtores sem qualquer interesse pessoal imediato em seu valor de uso, mas, sim, em seu valor de troca. A produção de mercadorias não é um meio direto de satisfação de necessidades. É um meio de adquirir moeda pela troca de produtos por moeda, que, por sua vez, pode ser utilizada na compra dos produtos desejados por seu valor de uso. Sob tais condições, os produtos do trabalho humano são mercadorias, e a sociedade é caracterizada como voltada para a produção de mercadorias.

Na produção de mercadorias, a atividade produtiva de uma pessoa não tem qualquer ligação direta com seu consumo; ambos devem ser mediados pela troca e pelo mercado. Além disso, uma pessoa não tem qualquer ligação direta com as pessoas que produzem as mercadorias que consomem. Tal relação social também é mediada pelo mercado. A produção de mercadorias implica um alto grau de especialização produtiva, em que cada produtor isolado cria somente uma ou poucas mercadorias, dependendo, assim, de que outros indivíduos, com quem ele não tem qualquer relação pessoal direta, comprem suas mercadorias no mercado. Uma vez que ele tenha trocado suas mercadorias por dinheiro, novamente dependerá de que pessoas com as quais ele não tem relação pessoal direta ofereçam, no mercado, aquelas mercadorias que ele tem de comprar para satisfazer às suas necessidades pessoais.

Nesse tipo de economia, existem inter-relações e dependências econômicas extremamente complexas e que não envolvem interação e associação pessoal direta. O indivíduo interage somente com a instituição social impessoal do mercado, no qual o indivíduo troca mercadorias por moeda e moeda por mercadorias. Consequentemente, o que, em realidade, é um conjunto de complexas relações econômicas e sociais entre pessoas é, para cada indivíduo, apenas uma série de relações impessoais entre coisas – isto é, mercadorias. Cada indivíduo depende das forças impessoais do mercado, de compra e venda, ou demanda e oferta, para a satisfação de suas necessidades. 

A segunda característica definidora do capitalismo é a propriedade privada dos meios de produção. Isso significa que a sociedade dá a certas pessoas o direito de determinar como matérias-primas, ferramentas, maquinaria e prédios destinados à produção podem ser usados. Tal direito necessariamente implica que outros indivíduos sejam excluídos do grupo daqueles que têm algo a dizer sobre como esses meios de produção podem ser usados. As primeiras defesas da propriedade privada falavam em termos de cada produtor individual possuir – e, portanto, controlar – os meios de sua própria produção. No entanto, muito cedo na evolução do capitalismo, as coisas se desenvolveram de modo diferente. De fato, a terceira característica definidora do capitalismo é que muitos produtores não são proprietários dos meios necessários para a execução de sua atividade produtiva. A propriedade se concentra nas mãos de um pequeno segmento da sociedade – os capitalistas. Um capitalista proprietário não precisava representar qualquer papel direto no processo produtivo, de modo a controlá-lo; a propriedade lhe dava esse controle. E essa propriedade foi o que permitiu ao capitalista apropriar-se do excedente social. Assim, a propriedade dos meios de produção é a característica do capitalismo que confere à classe capitalista o poder pelo qual controla o excedente social, estabelecendo-se, a partir daí, como classe social dominante.

Essa dominação, é claro, implica a terceira característica definidora de capitalismo – a existência de uma numerosa classe trabalhadora, que não tem qualquer controle sobre os meios necessários para a execução de suas atividades produtivas. No capitalismo, a maioria dos trabalhadores não possui as matérias primas nem os implementos com os quais produz mercadorias. Isso quer dizer que
as mercadorias que os trabalhadores produzem não lhes pertencem, mas sim, aos capitalistas proprietários dos meios de produção. O trabalhador típico entra no mercado possuindo ou controlando somente uma coisa – sua capacidade de trabalho, isto é, a sua força de trabalho. Para se dedicar à atividade produtiva, tem de vender sua força de trabalho a um capitalista. Em troca, recebe um salário e produz mercadorias que pertencem ao capitalista. Desse modo, ao contrário de qualquer outro modo de produção anterior, o capitalismo faz da força produtiva humana uma mercadoria em si mesma – a força de trabalho – e gera um conjunto de condições pelas quais a maioria das pessoas não pode viver, a não ser que sejam capazes de vender a mercadoria de que são proprietárias – a força de trabalho – a um capitalista, em troca de um salário. Com esse salário, podem comprar dos capitalistas somente uma fração das mercadorias que eles mesmos produziram. O restante das mercadorias que produziram constitui o excedente social e é retido e controlado pelos capitalistas.

A quarta e última característica definidora de capitalismo é a de que a maioria das pessoas é motivada por um comportamento individualista, aquisitivo e maximizador. Isso é necessário para o funcionamento adequado do capitalismo. Primeiro, para assegurar uma oferta adequada ao trabalho e facilitar o rígido controle dos trabalhadores, é necessário que produzam mercadorias cujo valor exceda em muito o valor das mercadorias que consomem. Nos primórdios do capitalismo, isso foi conseguido de dois modos. Primeiro, os trabalhadores recebiam salários tão baixos que, com suas famílias, viviam nos limites da mais extrema insegurança e pobreza materiais. O único modo claro de reduzir a insegurança e a pobreza era trabalhar mais horas e mais intensamente, para obter um salário mais adequado e evitar ser forçado a juntar-se ao grande exército de trabalhadores desempregados, que tem sido um fenômeno social sempre presente no sistema capitalista.

À medida que o capitalismo foi evoluindo, a produtividade dos trabalhadores foi crescendo. Eles buscavam organizar-se coletivamente em sindicatos e associações de trabalhadores, para lutar por melhores salários. Por volta do final do século passado e início do século XX, após diversos avanços e inúmeros retrocessos, essa luta começou a surtir algum efeito. Desde então, o poder de compra do salário do trabalhador vem crescendo lenta e firmemente. Em lugar da privação física generalizada, o capitalismo tem sido obrigado a recorrer cada vez mais a novos tipos de motivação, para manter a massa dos trabalhadores produzindo o excedente social. Um novo ethos social, às vezes chamado consumismo, tornou-se dominante. Caracteriza-se pela crença de que mais renda, por si só, sempre significa mais felicidade.

Os mores sociais do capitalismo têm levado as pessoas a acreditar que praticamente toda necessidade ou infelicidade subjetiva pode ser eliminada comprando-se mais mercadorias. O mundo competitivo e economicamente inseguro no qual se movem os trabalhadores cria sentimentos subjetivos de ansiedade, solidão e alienação. A maioria dos trabalhadores vê como causa desses sentimentos sua própria incapacidade de comprar mercadorias suficientes para fazê-los felizes. Contudo, à medida que recebem salários maiores e compram mais mercadorias, verificam que o sentimento geral de insatisfação e ansiedade continua. Assim, os trabalhadores tendem a concluir que o problema é que o aumento dos salários é insuficiente. Como não identificam a verdadeira origem de seus problemas, caem em um círculo vicioso asfixiante, no qual quanto mais se tem, mais necessidade se sente; quanto mais rápido se corre, mais devagar se parece andar; quanto mais arduamente se trabalha, maior parece ser a necessidade de trabalhar cada vez mais arduamente.

Em segundo lugar, os capitalistas também são induzidos a um comportamento combativo e aquisitivo. A razão mais imediata disso é o fato de que o capitalismo sempre foi caracterizado pela luta competitiva entre capitalistas por fatias maiores do excedente social. Nessa luta sem fim, o poder de cada capitalista depende do
volume de capital que ele controla. Se os concorrentes de um capitalista adquirem capital – e, com isso, tamanho e poder econômico – mais rapidamente que ele, maior a probabilidade de ele ter de enfrentar a própria extinção. Assim, sua existência como capitalista depende de sua habilidade em acumular capital pelo menos no mesmo ritmo que os concorrentes. Daí o capitalismo ter sido sempre caracterizado pelo esforço frenético dos capitalistas em obter mais lucro e converter seus lucros em mais capital.

O consumismo entre capitalistas tem sido importante também para o funcionamento adequado do capitalismo. No processo de produção, os capitalistas se apropriam do excedente produzido, a mais-valia, sob a forma de mercadorias. Para que essa mais-valia seja convertida em lucro monetário, essas mercadorias devem ser vendidas no mercado. Pode-se esperar, de modo geral, que os trabalhadores gastem todo o salário em mercadorias, mas seus salários podem comprar só parte das mercadorias produzidas (caso contrário, não haveria qualquer excedente social). Os capitalistas comprarão muitas mercadorias como investimento a acrescentar à sua acumulação de capital. Entretanto, essas duas fontes de demanda jamais foram suficientes para gerar o gasto necessário para os capitalistas, como classe, para venderem todas as suas mercadorias. Portanto, para haver uma procura monetária suficiente para os capitalistas venderem todas as suas mercadorias, é preciso uma terceira fonte de demanda: os gastos crescentes de consumo dos próprios capitalistas.

Quando tal procura não se concretiza, o capitalismo sofre depressões; quando as mercadorias não podem ser vendidas, os trabalhadores são despedidos, os lucros caem, gerando uma crise econômica geral. O capitalismo, através de sua história, tem sofrido crescentes crises dessa espécie. Uma grande preocupação da maioria dos pensadores econômicos discutida neste livro tem sido compreender a natureza e as causas dessas crises e descobrir remédios para eliminá-las ou, ao menos, aliviar seus efeitos.

História do pensamento econômico / E. K. Hunt, Mark Lautzenheiser ; [tradução de André Arruda Villela]. - Rio de Janeiro: Elsevier, 2013. 504p.: 24 cm

A primeira guerra mundial - Margareth Macmillan


Prólogo Guerra ou Paz?


Louvain era uma localidade tranquila, como afirmava um guia de viagem de 1910, mas certo dia foi palco de um incêndio espetacular. Nenhum de seus habitantes poderia esperar que aquilo acontecesse com a bela e civilizada cidade. Próspera e pacífica ao longo de muitos séculos, era conhecida por suas inúmeras e maravilhosas igrejas, casas antigas, um prédio da prefeitura soberbo em estilo gótico e uma famosa universidade fundada em 1425. A biblioteca da universidade, no célebre e velho Cloth Hall, continha 200 mil livros, inclusive muitas obras importantes sobre teologia e clássicas, bem como uma rica coleção de manuscritos que variavam de pequena série de músicas escritas por um  monge no século IX a manuscritos iluminados, sobre os quais os monges haviam trabalhado durante anos. No fim de agosto de 1914, entretanto, o cheiro de fumaça tomou conta da cidade, e as chamas que destruíram Louvain podiam ser vistas a quilômetros de distância. Grande parte da cidade virou ruína, inclusive sua grande biblioteca, enquanto os moradores desesperados, em cenas que se tornariam familiares no mundo do século XX, fugiam para a área rural carregando tudo que podiam de seus pertences.

Como a maior parte da Bélgica, Louvain teve o infortúnio de estar na rota alemã de invasão da França na Grande Guerra que eclodiu no verão de 1914 e se estenderia até 11 de novembro de 1918. Os planos alemães previam uma guerra em duas frentes, com uma ação de conter a Rússia, o inimigo a leste, e uma rápida invasão e derrota da França a oeste. Esperavam que a Bélgica, país neutro, aquiescesse quietamente à travessia de seu território pelas tropas alemãs rumo ao sul. Como tantas vezes aconteceu mais tarde na Grande Guerra, essa suposição se revelou totalmente equivocada. O governo belga decidiu resistir, o que inutilizou de imediato o plano alemão, e os ingleses, após alguma hesitação, entraram na guerra contra a Alemanha. Quando chegaram a Louvain em 19 de agosto, os alemães já estavam rancorosos com o que consideraram uma resistência belga sem sentido, e preocupados em se verem atacados por tropas inglesas e belgas, assim como por civis comuns que poderiam pegar em armas.

Nos primeiros dias tudo correu bem: os alemães se conduziram corretamente, e os cidadãos de Louvain estavam com medo demais para qualquer hostilidade aos invasores. Em 25 de agosto chegaram novas tropas alemãs que recuavam diante de um contra-ataque belga, e correu o boato de que os ingleses estavam vindo. Houve tiros, provavelmente disparados por soldados alemães nervosos e talvez bêbados. O pânico cresceu entre os alemães, convencidos de estarem sob ataque, e as primeiras represálias ocorreram. Naquela noite e nos dias seguintes, civis foram arrancados de suas casas, e alguns, entre eles o prefeito, o reitor da universidade e vários policiais, foram fuzilados sem contemplação. Na conta final, 250 habitantes de uma população de 10 mil foram mortos, e muitos outros espancados e maltratados. Mil e quinhentos moradores de Louvain, de crianças a avós, foram metidos num trem e mandados para a Alemanha, onde multidões os receberam com insultos e sarcasmos.

Os soldados alemães – aos quais frequentemente oficiais se juntaram – saquearam a cidade e deliberadamente incendiaram prédios. Mil e cem das 9 mil casas de Louvain foram destruídas. As chamas tomaram conta de uma igreja do século XV, e seu teto desabou. Por volta da meia-noite de 25 de agosto, soldados alemães entraram na biblioteca e espalharam gasolina. Pela manhã o prédio estava em ruínas, e seus livros não existiam mais, embora as chamas continuassem ardendo por vários dias. Um acadêmico local, padre, conversou com o embaixador americano na Bélgica alguns dias mais tarde. O belga estava calmo e descreveu a destruição na cidade, o fuzilamento de amigos e a cena comovente dos refugiados, mas, quando se referiu à biblioteca, pôs a cabeça entre as mãos e chorou. “O centro da cidade é um monte de escombros fumegantes,” relatou um professor que retornou à cidade. “Silêncio opressivo por toda parte. Todo mundo se escondeu. Vejo rostos amedrontados nas janelas dos porões.”

Isso foi apenas o começo, quando a Europa se deixou arrastar para a Grande Guerra. A catedral de Reims, com setecentos anos de existência, a mais bela e importante catedral francesa, onde a maioria dos reis franceses tinha sido coroada, foi pulverizada pelos canhões alemães logo após o saque a Louvain. A cabeça de uma de suas magníficas esculturas de anjos foi encontrada no chão, com seu belo sorriso beatífico intacto. Ypres, com seu próprio soberbo Cloth Hall, foi reduzida a um monte de pedras, e o coração de Treviso, no norte da Itália, destruído por bombardeios. Muito embora nem toda tenha sido causada pelos alemães, a destruição produziu tremendo impacto na opinião americana e contribuiu para a entrada dos Estados Unidos na guerra em 1917. Como disse pesarosamente um professor alemão no fim da guerra: “Hoje podemos afirmar que três nomes, Louvain, Reims e Lusitania, em igual medida, varreram da América a simpatia pela Alemanha.”

As perdas em Louvain foram na verdade pequenas, considerando o que estava por vir – os mais de 9 milhões de soldados mortos e outros 15 milhões feridos, e a devastação de boa parte do restante da Bélgica, do norte da França, da Sérvia e de partes dos impérios russo e austro-húngaro. De qualquer forma, Louvain transformou-se no símbolo da destruição sem propósito, do dano causado aos europeus por eles mesmos naquela que fora a parte mais próspera e poderosa do mundo, e dos ódios irracionais e incontroláveis entre povos que tanto tinham em comum.

A Grande Guerra começou no lado da Europa oposto a Louvain, em Sarajevo, nos Balcãs, com o assassínio do Arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro do trono da Áustria-Hungria. Como os incêndios que devoraram Louvain, esse ato disparou um conflito que se expandiu a toda a Europa e a muitas partes do mundo. As maiores batalhas e perdas foram nas frentes ocidental e oriental, mas também houve combates nos Balcãs, no norte da Itália, no Oriente Médio e no Cáucaso, bem como no Extremo Oriente, no Pacífico e na África. Soldados de todo o mundo derramaram-se na Europa, vindos da Índia, do Canadá, da Nova Zelândia e da Austrália (no Império Britânico) ou da Argélia e da África subsaariana no francês. A China enviou “coolies” para transportar suprimentos e cavar trincheiras para os aliados, enquanto o Japão, também aliado, ajudou a patrulhar as rotas marítimas mundiais. Em 1917 os Estados Unidos, não mais suportando as provocações alemãs, entraram na guerra. Perderam cerca de 114 mil soldados e vieram a concluir que haviam sido levados a se envolver em um grande conflito no qual não tinham qualquer interesse.

A paz, ou algo parecido, foi alcançada em 1918, mas por uma Europa e um mundo muito diferentes. Quatro grandes impérios tinham se desmantelado: a Rússia, que dominara diversos povos, desde os poloneses a oeste aos georgianos no leste; a Alemanha com seus territórios na Polônia e além-mar; a Áustria-Hungria, o grande Império multinacional do centro da Europa; e o Império Otomano, que ainda englobava pedaços de território europeu, além da Turquia de hoje e da maior parte do Oriente Médio árabe. Os bolcheviques tinham assumido o poder na Rússia, sonhando com a criação de um novo mundo comunista e que a revolução desencadeara uma sucessão de outras na Hungria, na Alemanha ou, mais tarde, na China. A velha ordem internacional se fora para sempre. Fraca e empobrecida, a Europa já não era a senhora inquestionável do mundo. Em suas colônias, movimentos nacionalistas se multiplicavam, e novas potências surgiam em sua periferia, a leste no Japão, e a oeste da Europa, nos Estados Unidos. A Grande Guerra não foi o catalizador do aparecimento da superpotência ocidental – isso já estava acontecendo – mas acelerou a chegada do século da América.

Sob diversas formas, a Europa pagou um preço terrível pela sua Grande Guerra: os veteranos que nunca se recuperaram psicológica ou fisicamente; as viúvas e os órfãos; e as moças que jamais teriam um marido, porque tantos homens morreram. Nos primeiros anos de paz, novas aflições caíram sobre a sociedade europeia: a epidemia de gripe (talvez consequência do revolvimento do solo rico em micróbios na Bélgica e no norte da França) que ceifou cerca de 20 milhões de vidas pelo mundo; a fome consequente da inexistência de braços para plantar e de transporte para levar alimentos até os mercados; e a turbulência política, quando extremistas de direita e de esquerda usaram a força para alcançar seus objetivos. Em Viena, outrora uma das cidades mais ricas da Europa, os membros da Cruz Vermelha testemunharam surtos de tifo, cólera, raquitismo e escorbuto – flagelos que, se pensava, tinham desaparecido da Europa. E, afinal, os anos 1920 e 1930 foram apenas uma pausa no que alguns hoje chamam a nova Guerra dos Trinta Anos da Europa. Em 1939, a Grande Guerra adquiriu novo nome, quando estourou a Segunda Guerra Mundial.

A Grande Guerra ainda lança sua sombra, fisicamente e em nossa
imaginação. Toneladas de material bélico permanecem enterradas nos campos de batalha, e não raramente alguém – um infeliz agricultor plantando na Bélgica, talvez – entra na lista de baixas. Todas as primaveras, depois que o solo descongela, unidades dos exércitos francês e belga têm de recolher granadas não explodidas que afloraram. Também em nossas lembranças, a Grande Guerra, devido, em parte, ao extraordinário afluxo de memórias, livros e pinturas, mas também em razão de tantos de nós termos conexões familiares com o conflito, permanece aquele capítulo sombrio e terrível de nossa história. Meus dois avôs lutaram na guerra; um no Oriente Médio com o exército indiano, e o outro como médico canadense num hospital de campanha no Front Ocidental. Minha família conserva as medalhas de ambos, uma espada presenteada por um paciente em Bagdad e uma granada de mão com que brincávamos em criança no Canadá, até alguém achar que provavelmente não estava desativada. 

Também recordamos a Grande Guerra por ser um enorme quebra-cabeça. Como conseguiu a Europa impor tal castigo a si mesma e ao mundo? Há muitas explicações possíveis; na verdade, tantas que é difícil escolher entre elas. Para começar, a corrida armamentista, rígidos planos militares, rivalidade econômica, guerras comerciais, o imperialismo com sua busca de colônias ou os sistemas de alianças dividindo a Europa em campos antagônicos. Ideias e emoções muitas vezes cruzaram fronteiras nacionais: o nacionalismo, com seus repulsivos cavaleiros do ódio e desprezo pelos outros; medos de perdas ou revoluções, de terroristas e anarquistas; esperanças de mudança e de um mundo melhor; exigências de honra e virilidade mandando não recuar ou parecer fraco; ou Darwinismo Social, que classificava sociedades como se fossem espécies e promovia uma crença não só na evolução e no progresso, mas também na inevitabilidade da luta. E que dizer do papel próprio de cada nação e de seus motivos? Das ambições das ascendentes como a Alemanha e o Japão; dos temores das declinantes como a Inglaterra; da vingança, no caso da França e da Rússia; ou da luta pela sobrevivência da Áustria-Hungria? No cerne de cada nação, ainda as pressões internas: um novel movimento trabalhista, por exemplo, ou forças abertamente revolucionárias; exigências de voto para as mulheres ou de independência de nações submetidas; ou conflitos entre as classes, entre os crentes e os anticlericais, ou entre militares e civis. Como cada um desses vetores atuou no sentido de preservar a longa paz da Europa ou de movê-la rumo à guerra?

Movimentos, ideias, preconceitos, instituições, conflitos são todos, sem dúvida, importantes. Todavia, ainda restam os indivíduos, no fim não muitos, que tiveram de dizer “sim,” “em frente” e irromper a guerra, ou “não” e detê-la. Alguns eram monarcas hereditários com grande poder – o Kaiser da Alemanha, o Czar da Rússia e o Imperador da Áustria-Hungria; outros – o presidente da França, os
primeiros-ministros da Inglaterra e da Itália – engastados em regimes constitucionais. Foi, em retrospecto, a tragédia da Europa e do mundo o fato de nenhum dos personagens-chave em 1914 ser um grande e criativo líder com coragem para enfrentar as pressões que conduziam ao conflito. De certa forma, qualquer explicação de como eclodiu a Grande Guerra deve balancear as grandes correntezas do passado com o papel dos seres humanos levados por ela, mas que às vezes mudaram seu curso.

É fácil erguer mãos para o céu e dizer que a Grande Guerra foi inevitável, mas trata-se de ideia perigosa, especialmente em tempo como o nosso, que em alguns aspectos, não em todos, parece aquele mundo sumido dos anos anteriores a 1914. Nosso mundo enfrenta desafios semelhantes, alguns de ordem revolucionária e ideológica, como o crescimento de religiões militantes e movimentos sociais de protesto; outros advêm da tensão de nações em crescimento ou em declínio, como a China e os Estados Unidos. Precisamos considerar seriamente como nascem as guerras e como podemos preservar a paz. Nações se confrontam, como fizeram antes de 1914, no que seus líderes imaginavam ser um jogo de blefes e contrablefes que julgavam manter sob controle. Apesar disso, subitamente a Europa passou da paz para a guerra, apenas nas cinco semanas que se seguiram ao assassinato do Arquiduque. Em crises anteriores, tão graves como a de 1914, a Europa não ultrapassou os limites. Seus líderes – e grande parcela de seus povos os apoiou – preferiram resolver as questões e preservar a paz. O que aconteceu de forma diferente em 1914?

Comecemos imaginando uma paisagem com gente a caminhar. O solo, a vegetação, os morros, os riachos todos são componentes importantes da Europa, desde a economia à estrutura social; enquanto as brisas são as correntes de pensamento que modelavam opiniões e pontos de vista europeus. Suponha que você é um dos caminhantes. Terá opções diante de si. O tempo está bom, embora possa notar algumas nuvens escuras no céu. O caminho à sua frente é fácil pelo terreno plano. Você sabe que deve continuar caminhando porque o exercício faz bem e, afinal, você quer chegar a um destino em segurança. Também sabe que, à medida que avança, deve tomar certo cuidado. Pode ser que apareçam animais inamistosos, que haja cursos de água a atravessar e alguma encosta íngreme. Mesmo assim, não passa por sua cabeça esbarrar num deles de maneira fatal. Você é um andarilho experiente e muito sensato.

Em 1914, no entanto, a Europa desabou do penhasco e mergulhou em um conflito catastrófico que iria matar milhões de seus homens, exaurir suas economias, abalar e rebentar impérios e sociedades e solapar definitivamente o domínio europeu do mundo. As fotografias de multidões aplaudindo nas grandes capitais são enganosas. A eclosão da guerra pegou de surpresa a maioria dos europeus, e sua reação inicial foi de espanto e choque. Tinham nascido e vivido acostumados à paz. O século desde o fim das guerras napoleônicas fora o mais pacífico na Europa desde o Império Romano. É verdade que guerras houvera, porém de natureza colonial distante, como a dos zulus na África meridional, ou na periferia europeia, como a Guerra da Crimeia, ou ainda, curtas e decisivas, como a Guerra Franco-Prussiana.

O solavanco final rumo à guerra só precisou de pouco mais de um mês, entre o assassínio do arquiduque austríaco em Sarajevo, em 28 de junho, e a eclosão de uma guerra geral europeia em 4 de agosto. No fim, as decisões cruciais daquelas semanas que levaram a Europa à guerra foram tomadas por um grupo surpreendentemente pequeno de homens (e eram todos homens). Para entender como agiram, porém, devemos ir mais para trás e examinar as forças que os moldaram. Precisamos compreender as sociedades e instituições das quais foram o produto. Devemos tentar entender os valores e as ideias, as emoções e os preconceitos que os enformaram quando olharam o mundo. Também devemos nos lembrar de que, com uma ou duas exceções, mal faziam ideia de aonde estavam levando seus países e o mundo. Nesse aspecto, estavam muito bem sintonizados com o tempo em que viviam. Para a maioria dos europeus, uma guerra geral era algo impossível, improvável ou fadada a terminar rapidamente.

Ao tentarmos entender o sentido dos eventos do verão de 1914, devemos nos situar no lugar daqueles que viveram um século atrás, antes de nos apressarmos a distribuir culpas. Não podemos perguntar aos que decidiram o que tinham em mente quando deram os passos rumo à destruição, mas podemos fazer uma ideia bastante razoável consultando os arquivos da época e as memórias escritas posteriormente. Algo que convém ficar bem claro é que os responsáveis pelas escolhas sem dúvida pensaram muito nas crises anteriores e nos momentos que as precederam, quando decisões foram tomadas ou evitadas.

Os líderes russos, por exemplo, jamais haviam esquecido ou perdoado a anexação da Bósnia e Herzegovina pelo Império Austro-Húngaro em 1908. Além disso, a Rússia falhara ao não apoiar sua protegée, a Sérvia, quando este país confrontou os austro-húngaros, e novamente nas Guerras Balcânicas em 1912-13. Agora, a Áustria-Hungria ameaçava destruir a Sérvia. O que significaria para a Rússia e seu prestígio ficar assistindo mais uma vez sem nada fazer? Pois a Alemanha não apoiara firmemente seus aliados austro-húngaros em confrontos anteriores? Se nada fizesse dessa vez, não perderia seu único e indiscutível aliado? O fato de graves crises anteriores entre potências envolvendo colônias ou os Balcãs terem sido solucionadas pacificamente acrescentou outro fator às estimativas de 1914. A ameaça de guerra já fora utilizada, mas, no fim, houve pressões exercidas por terceiros, fizeram-se concessões, conferências foram convocadas com sucesso para resolver questões de grande perigo. Andar pelo fio da navalha dera resultado. O mesmo processo certamente começaria a dar certo em 1914. Só que dessa vez o equilibrismo à beira do precipício não funcionou. O Império Austro-Húngaro declarou guerra à Sérvia, com apoio da Alemanha. A Rússia decidiu apoiar a Sérvia e entrou em guerra contra a a Alemanha e a Áustria-Hungria. A Alemanha atacou a França, aliada da Rússia, e a Inglaterra veio em socorro de seus aliados. E assim passaram a barreira.

A eclosão da guerra em 1914 não aconteceu sob céu azul. Nuvens
acumularam-se ao longo das duas décadas anteriores, e muitos europeus viam ofato com desconforto. Imagens da iminência de tormentas, de barragens prontas para rebentar e de avalanches a ponto de deslizar eram usuais na literatura da época. Por outro lado, muitos líderes, tanto quanto cidadãos comuns, acreditavam ser capazes de afastar o risco de conflitos e criar instituições internacionais mais fortes e melhores para resolver pacificamente divergências e tornar obsoleto o instrumento da guerra. Talvez os derradeiros anos de ouro da Europa pré-guerra sejam imaginação de gerações posteriores, mas, mesmo na época, a literatura continha imagens de raios de sol mundo afora e da humanidade marchando para um futuro mais próspero e feliz.

Mui pouca coisa é inevitável na história. A Europa não precisava ir à guerra em 1914; uma guerra geral poderia ter sido evitada até o último instante, em 4 de agosto, quando finalmente a Inglaterra decidiu tomar parte. Olhando de hoje, claro que podemos identificar as forças que tornavam a guerra mais provável: as
rivalidades por colônias, a competição econômica, os nacionalismos étnicos que iam esfacelando os decadentes impérios Otomano e Austro-Húngaro e o crescimento de uma opinião pública nacionalista a exercer novas pressões sobre os líderes em prol de supostos direitos e interesses de suas nações.

Podem-se ver, como perceberam os europeus naqueles dias, as tensões na ordem internacional. A questão germânica, por exemplo. A criação da Alemanha, em 1871, de repente apresentou à Europa uma nova grande potência no centro do continente. Seria a Alemanha o fulcro em torno do qual o resto da Europa evoluiria ou a ameaça contra a qual se uniria? Como as potências de fora da Europa – Japão e Estados Unidos em ascensão – se encaixariam num mundo dominado pela Europa? O darwinismo social, filho bastardo do pensamento evolucionista e primo do militarismo, alimentou a crença em uma competição entre as nações como parte das leis da natureza, segundo as quais, no fim, sobreviveriam as mais aptas. E provavelmente por meio de guerras. A admiração pelos militares criada no século XIX, reconhecendo-os como a parte mais nobre da nação, e a disseminação de valores militares pelas sociedades civis incentivaram a crença de que a guerra era etapa necessária na grande luta pela sobrevivência e que, na verdade, devia ser salutar para as sociedades afinando-as, por assim dizer.

A ciência e a tecnologia, que trouxeram tantos benefícios para a humanidade no século XIX, produziram também armas novas e mais terríveis. Rivalidades entre nações estimularam uma corrida armamentista que, por sua vez, aprofundou percepções de insegurança e aumentou o ímpeto dessa corrida. Nações buscavam aliados para compensar suas fraquezas, e suas decisões ajudaram a levar a Europa para perto da guerra. A França, que perdia a corrida demográfica para a Alemanha, fez aliança com a Rússia, em parte para contar com seu gigantesco potencial humano. Em troca, a Rússia conseguiu tecnologia e capital franceses. A aliança franco-russa, porém, fez a Alemanha se sentir cercada. Aproximou-se do Império Austro-Húngaro e, ao fazê-lo, encampou sua rivalidade com a Rússia nos Balcãs. O fortalecimento naval pretendido pela Alemanha como forma de obrigar a Inglaterra a manter uma posição amistosa convenceu esta não apenas de que era necessário superar a Alemanha em força naval, mas também a abandonar sua preferida indiferença em relação à Europa e se aproximar da França e da Rússia.

Os planos militares que vieram com a corrida armamentista e as alianças são por vezes apontados como responsáveis pela máquina do Juízo Final que, uma vez ligada, não pôde parar. No século XIX, toda potência europeia, exceto a Inglaterra, tinha um exército de conscritos, com pequena parte de seus homens em uniforme e um número muito maior como reserva. Em ameaça de guerra, grandes exércitos se formavam em poucos dias. A mobilização em massa seguia um plano detalhado, para cada homem chegar à unidade certa, e as unidades eram postas na configuração correta por ferrovia. Os horários eram peças de arte, mas muito inflexíveis, não permitindo, como na Alemanha em 1914, mobilização parcial em uma só frente – e assim foi que a Alemanha entrou em guerra contra Rússia e França, em vez de somente contra a Rússia. Havia, ademais, perigo em não mobilizar suficientemente cedo. Se o inimigo já estivesse em suas fronteiras, enquanto seus homens ainda tratavam de chegar às respectivas unidades pelas ferrovias, corria-se o risco de já ter perdido a guerra. Quadros de movimento e planejamentos rígidos ameaçavam tirar dos líderes civis as decisões finais.

Os planos estão numa ponta do espectro da explicação pela Grande Guerra; na outra ponta estão considerações nebulosas mas impositivas de honra e prestígio. Wilhelm II da Alemanha se espelhava em seu famoso ancestral Friedrich, o Grande, mas mesmo assim foi sarcasticamente chamado de Guillaume le Timide, por haver recuado na segunda das duas crises do Marrocos. Gostaria ele de passar outra vez por isso? O que valia para indivíduos era também o caso para nações. Depois da humilhação da derrota para o Japão em 1904-5, a Rússia tinha necessidade premente de se reafirmar como grande potência. 

O medo teve papel relevante nas posições adotadas pelas nações em relação às outras e na aceitação por seus líderes e suas políticas da guerra como instrumento de política. A Áustria-Hungria temia desaparecer como potência, a menos que tomasse alguma medida a respeito do nacionalismo sul-eslavo dentro de suas fronteiras, e isso exigia fazer algo a propósito da atração de uma Sérvia sul-eslava e independente. A França temia sua vizinha Alemanha, mais forte econômica e militarmente. Os alemães encaravam apreensivos o leste. A Rússia desenvolvia-se rapidamente e se rearmava. Se a Alemanha não lutasse logo com a Rússia, podia nunca mais ser capaz de fazê-lo. A Inglaterra tinha muito a ganhar com a continuação da paz, mas temia, como sempre temera, que uma única potência dominasse o Continente. Cada potência temia outras, mas temia também seu próprio povo. Ideias socialistas tinham se disseminado pela Europa, e partidos e sindicatos socialistas ameaçavam o poder das velhas classes governantes. Seria o prenúncio de uma revolução violenta, como achavam muitos? O nacionalismo étnico, da mesma forma, era uma força desagregadora na Áustria-Hungria, mas também na Rússia e na Inglaterra, onde a questão irlandesa, nos primeiros meses de 1914, foi, para o governo, uma preocupação maior do que as relações exteriores. Poderia a guerra ser uma ponte para as divisões internas, unindo o público em uma grande onda patriótica?

Finalmente, e isso também é verdadeiro em nossos dias atuais, nunca devemos subestimar o papel cumprido nos assuntos humanos por erros, trapalhadas ou simplesmente inoportunidades. A natureza complexa e ineficiente dos governos russo e alemão significa que os líderes civis não eram totalmente informados sobre planos militares, mesmo quando tinham implicações políticas. Franz Ferdinand, o arquiduque austríaco assassinado em Sarajevo, havia muito se opunha aos que queriam guerra para resolver problemas austro-húngaros. Ironicamente, sua morte tirou de cena o único que podia ser capaz de impedir seu país de declarar guerra à Sérvia desencadeando a reação em cadeia. O assassinato ocorreu no começo das férias de verão. No agravamento da crise, muitos diplomatas, estadistas e chefes militares tinham deixado suas capitais. O ministro do Exterior inglês, Sir Edward Grey, estava observando pássaros. O presidente e o primeiro-ministro franceses viajavam nas duas últimas semanas de julho pela Rússia e pelo Báltico, frequentemente sem contato com Paris.

Ainda assim, existe o perigo de, ao nos concentrarmos nos fatores que pressionavam em direção à guerra, desconsiderar os que ao contrário, tinham o fito da paz. O século XIX assistiu à proliferação de sociedades e associações que pugnavam por banir as guerras e incentivar alternativas como a arbitragem para solucionar disputas entre nações. Homens ricos como Andrew Carnegie e Alfred Nobel doaram fortunas à promoção do entendimento internacional. Os movimentos trabalhistas e os partidos socialistas do mundo se organizaram na Segunda Internacional, que repetidamente apresentava moções contra a guerra e ameaçava convocar uma greve geral em caso de guerra.

O século XIX foi um tempo extraordinário de progresso na ciência, na indústria e na educação, em grande parte centrado numa Europa cada vez mais próspera e poderosa. Seus povos ligavam-se entre si e com o mundo por comunicações, comércio, investimentos, migração cada vez mais rápidos e pela expansão de impérios oficiais e não oficiais. A globalização mundial de antes de 1914 só se compara à que acontece em nossos dias desde o fim da Guerra Fria. Com certeza, e isso era amplamente admitido, esse novo mundo de interdependência seria capaz de criar novas instituições internacionais e induzir a aceitação de novos padrões universais para comportamento das nações. Relações internacionais já não eram vistas, como no século XVIII, na forma de um jogo em que, se alguém ganhava, alguém tinha de perder. Ao contrário, todos poderiam ganhar, mantida a paz. O uso crescente da arbitragem para resolver disputas entre nações, as frequentes ocasiões em que as grandes potências europeias trabalharam juntas para tratar, por exemplo, de crises envolvendo o decadente Império Otomano, e a criação de uma corte internacional de arbitragem – tudo parecia mostrar que, passo a passo, estavam sendo lançadas as
fundações de um modo novo e mais eficiente de conduta dos assuntos internacionais. Guerra, esperava-se, tornar-se-ia coisa obsoleta. Guerra era uma forma ineficaz de resolver disputas. Além do mais, ia se tornando caríssima, tanto em termos de desperdício de recursos dos combatentes quanto na escala dos danos causados por novas armas e tecnologias. Banqueiros alertavam que, mesmo que começasse uma guerra geral, ela teria de ser suspensa em poucas semanas simplesmente porque não haveria como financiá-la.

Grande parte da copiosa literatura sobre os eventos de 1914 compreensivelmente indaga: por que aconteceu a Grande Guerra? Talvez devamos fazer outro tipo de pergunta: por que a longa paz não continuou? Por que os vetores a favor da paz – e eram fortes – não prevaleceram? Afinal, já tinham valido no passado. Por que dessa vez o sistema falhou? Uma forma de obter resposta é ver como as opções da Europa se reduziram nas décadas que antecederam 1914.

Voltemos a imaginar os caminhantes. Começam, como a Europa, numa planície lisa e ensolarada, mas chegam a encruzilhadas onde têm de optar por um caminho ou outro. Embora na época não percebessem as implicações, veem-se percorrendo um vale que vai se estreitando e pode não levar aonde desejam chegar. Podia ser possível tentar encontrar um caminho melhor, mas exigiria esforço considerável – e não está claro o que existe do outro lado dos morros que cercam o vale. Também é possível retroceder, mas isso pode ser muito oneroso, além de levar tempo e talvez causar humilhação. Por exemplo, poderia o governo alemão admitir a si mesmo e ao povo da Alemanha que sua corrida naval com a Inglaterra era não apenas sem sentido, mas também um colossal desperdício de dinheiro?

Este livro traça o caminho percorrido pela Europa até 1914 e ressalta os pontos de inflexão em que suas opções se estreitaram. A decisão francesa de buscar uma aliança com a Rússia para contrabalançar a Alemanha é um deles. A decisão alemã de iniciar uma corrida pelo poder naval com a Inglaterra na década de 1890 é outra. Cautelosamente, a Inglaterra acertou os problemas com a França e, no momento oportuno, com a Rússia. Mas outro momento-chave chegou em 1905-6, quando a Alemanha tentou romper a nova Entente Cordiale na primeira crise sobre o Marrocos. A tentativa resultou num tiro pela culatra, e os dois novos amigos ficaram ainda mais ligados e começaram a ter conversações militares secretas que acrescentaram outro fio aos laços entre a França e a Inglaterra. As graves crises que se seguiram na Europa – a crise da da Bósnia em 1908, a segunda crise do Marrocos em 1911 e as Guerras Balcânicas de 1912 e 1913 – agravaram ressentimentos, suspeitas e lembranças que moldaram as relações entre as grandes potências. Esse é o contexto em que decisões foram tomadas em 1914. 

É possível romper com o passado e começar de novo. Nixon e Mao, afinal, chegaram à conclusão, no começo dos anos 1970, de que ambos os países se beneficiariam com o fim de cerca de vinte anos de hostilidade. Amizades podem mudar, e alianças se quebram – a Itália o fez no começo da Grande Guerra, quando se recusou a lutar ao lado de seus parceiros da Tríplice Aliança, a Áustria Hungria e a Alemanha – mas, com o passar dos anos e com o aumento das obrigações mútuas e das ligações pessoais, isso se torna mais difícil. Um dos argumentos convincentes dos que apoiaram a intervenção inglesa em 1914 foi o fato de a Inglaterra ter induzido a França a contar com sua ajuda, e de que seria desonroso não cumprir o prometido. Entretanto houve tentativas, algumas já em 1913, de potências trocarem seus compromissos nos dois sistemas de aliança. A Alemanha e a Rússia de vez em quando conversaram sobre suas divergências, tal como fizeram Inglaterra e Alemanha, Rússia e Áustria-Hungria, ou França e Alemanha. Seja por inércia, por lembranças de choques no passado ou por medo de traições, sejam quais forem os motivos, as tentativas deram em nada.

Ainda assim, no fim chegamos a alguns generais, a cabeças coroadas, diplomatas e políticos que, no verão de 1914, tinham o poder e a autoridade para dizer “sim” ou “não.” Sim ou não à mobilização dos exércitos, sim ou não ao meio-termo, sim ou não a executar os planos elaborados por seus militares. O contexto é crucial para entender por que eram como foram e agiram como agiram. Não podemos, porém, esquecer as personalidades individuais. O Chanceler alemão, Theobald von Bethmann-Hollweg, acabara de perder sua adorada esposa. Terá isso alimentado o fatalismo com que contemplou a eclosão da guerra? Nicholas II da Rússia tinha um caráter fundamentalmente fraco. Por certo isso lhe tornou mais difícil resistir aos generais que queriam a imediata mobilização russa. Franz Conrad von Hötzendorf, Chefe do Estado-Maior dos exércitos austro-húngaros, queria a glória para seu país, mas também a dele próprio, para que pudesse casar com uma mulher divorciada.

Quando finalmente estourou, a guerra foi tão terrível que logo começou uma busca de culpados que se prolonga até hoje. Por meio de propaganda e criteriosa publicação de documentos, cada país beligerante proclamou a própria inocência e apontou o dedo para os outros. A esquerda acusou o capitalismo, os fabricantes e vendedores de armas, os “mercadores da morte.” A direita acusou a esquerda ou os judeus ou ambos. Na Conferência de Paz em Paris, em 1919, os vencedores falaram em levar os culpados – o Kaiser, alguns de seus generais e diplomatas – a julgamento, mas no fim nada aconteceu. A questão da responsabilidade continuou relevante porque, se a Alemanha fosse responsável, seria justo pagar reparações. Se não fosse responsável, e essa era a opinião geral na Alemanha e cada vez mais no mundo de língua inglesa, as indenizações e outras penalidades impostas à Alemanha eram profundamente injustas e ilegítimas. Nos anos entre as guerras, a opinião predominante foi a de que, como disse David Lloy d George: “As nações escorregaram pela borda para dentro do caldeirão fervente da guerra sem nenhum vestígio de apreensão ou temor.” A Grande Guerra não foi culpa de ninguém ou foi culpa de todos.

Após a Segunda Guerra Mundial, vários historiadores alemães corajosos, liderados por Fritz Fischer, deram mais uma olhada nos arquivos para sustentar que a Alemanha realmente foi culpada e que houve uma sinistra continuidade entre as intenções do último governo de antes da Grande Guerra e Hitler. Também foram contestados, e o debate continua.

A busca provavelmente nunca terminará, e eu própria argumentarei que algumas potências e seus líderes foram mais culpados que outros. A insana determinação austro-húngara de destruir a Sérvia em 1914, a decisão alemã de apoiá-la incondicionalmente, a impaciência russa na mobilização, tudo isso me parece corresponder a maior responsabilidade pela eclosão da guerra. Nem a França nem a Inglaterra queriam guerra, embora se possa alegar que podiam ter se esforçado mais para evitá-la. No fim, porém, creio que a questão mais interessante é saber como a Europa chegou ao ponto, no verão de 1914, em que a guerra ficou mais provável do que a paz. O que os líderes que tomavam as decisões pensaram estar fazendo? Por que naquele momento não recuaram, como já tinham feito antes? Em outras palavras, por que falhou a paz?

A Primeira Guerra Mundial... que acabaria com as guerras / Margaret MacMillan; tradução Gleuber Vieira - 1ª ed. - São Paulo : Globo Livros, 2014. 728 p. ; 23 cm